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Abaixo-Assinado (#48300):

Carta Aberta ao Conselho Regional de Fonoaudiologia - 2a região

Destinatário: CONSELHO REGIONAL DE FONOAUDIOLOGIA - 2a REGIÃO

Em atenção à Live Fono Em Bate Papo, promovida pelo Conselho Regional de Fonoaudiologia de São Paulo no dia 04 de Outubro de 2019, sobre o tema Transtornos do Espectro Autista (TEA), gostaríamos de manifestar nosso respeito às profissionais convidadas Fga. Lúcia Maria Guimarães Arantes e Fga. Cristiana Beatrice Lykouropoulos, mas considerar que alguns aspectos merecem mais discussão.
Em primeiro lugar, entendemos que o conselho de classe deve apoiar as diferentes perspectivas de atuação do fonoaudiólogo levando em conta a diversidade de concepções teóricas, e garantir atuação nos mais diferentes campos, sob critérios e princípios éticos. A entrevista apresentou uma perspectiva teórica, que já não condiz com toda a ciência desenvolvida no tema.
Em relação ao diagnóstico, primeiro aspecto abordado na Live, cabe ao Fonoaudiólogo o Diagnóstico Fonoaudiológico e que, nestes casos (de Transtorno do Espectro Autista), referem-se ao Desenvolvimento da Linguagem. Inverso à discussão apresentada, o diagnóstico etiológico de Transtorno do Espectro Autista é multiprofissional e, em geral, liderado por equipe médica.
Não obstante, o principal a ser discutido nesta seara é sobre a formação de profissionais das mais diversas áreas que se aproximam de crianças (pediatras, fonoaudiólogos, psicólogos, neurologistas, psiquiatras, educadores, terapeutas ocupacionais, etc) para que o diagnóstico seja mais cuidadoso e assertivo, pois sem dúvidas, atualmente, há uma alta recorrência de enganos tanto para diagnósticos demasiados, pela falta deles ou equivocados.
Para qualquer diagnóstico é necessário olhar cuidadoso que envolva entrevista e avaliação criteriosa, pautada em diretrizes ou roteiros que permitam determinar marcos e características que diferenciem o que faz parte do desenvolvimento típico e o que seriam alertas de patologia.
Também é fundamental que hipóteses diagnósticas (etiológicas, sindrômicas e de manifestação) sejam divididas com familiares, com serenidade, responsabilidade, empatia e respeito, para que encaminhamentos necessários sejam realizados de forma partilhada e fundamentada.
Precisamos ressaltar que o diagnóstico direcionará a intervenção. Pesquisas recentes, sob diferentes perspectivas teóricas (Malheiros et al, 2017, Rogers, 2012, Kupfer, 2009, Bosa, 2002), ressaltam que na área de TEA a intervenção precoce permite os melhores avanços. Assim, é necessária escuta mais relativizada nas apresentações das convidadas.
Além disso, pesquisas com estresse materno apontam para a postergação diagnóstica como um dos fatores mais estressantes (Gomes et al, 2015). Assim, retardar ou negar este direito à família pode ocasionar mais sofrimento do que o próprio fato de lidar com as dificuldades diárias. Corroborando estes estudos podemos encontrar muitos outros em que há diminuição de estresse familiar com a redução de sintomatologia no autismo frente a oportunidade de intervenção precoce.
Mesmo quando não é possível fechar um diagnóstico, é dever do profissional partilhar com pais onde estão as falhas ou alterações nos marcos do desenvolvimento, bem como riscos e quais os caminhos seguir para acompanhar e facilitar esse desenvolvimento.
Seja como for, hoje, com todo conhecimento que já encontramos disponíveis sobre janelas de desenvolvimento, diagnóstico e intervenção precoce, não é mais aceitável que se desconheçam os marcos do desenvolvimento, ou sinais de risco e não podemos aceitar discursos de que tais atitudes podem causar prejuízos ao avanço da criança. Sabemos que maiores prejuízos serão causados, caso a criança e seus pais sigam aguardando sozinhos por uma melhora que pode não ocorrer.
Como foi discutido, partilhamos e ressaltamos que o fonoaudiólogo tem, por direito, a possibilidade de escolher sua base teórica, bem como as técnicas, e estratégias de atuação que mais se adequam às necessidade do seu paciente.
Mas é uma inverdade e desconhecimento referir que a Análise do Comportamento Aplicada (ABA- Applied Behaviour Analysis) não produz evidências científicas sobre a qualidade de atuação.
Faz-se necessário esclarecer que esta ciência não é específica da Fonoaudiologia, e nem mesmo faz parte dos currículos de formação dos estudantes. Portanto, para o profissional interessado existe a necessidade de formação específica na área da Psicologia Comportamental que data da década de 60. A proposta de Lovaas sugere ensino individualizado e segmentado por pequenos passos de habilidades que serão reforçadas, daí vem o engano dos leigos em ligar isso ao adestramento, como referido pelas convidadas. O reforço de comportamentos alvos pode e deve ser feito na interação social, por isso o início precoce se faz tão necessário.
O papel do fonoaudiólogo que adota este segmento teórico é a seleção dos comportamentos de comunicação a serem ensinados com maior facilitação da inserção social do sujeito, entrando neste repertório os sistemas de comunicação alternativa, também amplamente estudados que sequer foram citados na Live.
Por último, a judicialização dos casos de TEA se dá por uma iniciativa de pais que procuram, tanto na rede de saúde pública quanto conveniada pelas operadoras de saúde, e não encontram profissionais qualificados, com experiência em áreas específicas (Comunicação Alternativa e Aumentativa, Apraxia, etc) ou com formação em métodos cujos resultados tem comprovação científica (ABA, PECS, PROMPT, dentre outros) e pior, não encontram profissionais que estejam atualizados na área do Desenvolvimento de Linguagem. É verdade que tais liminares parecem limitar o trabalho fonoaudiológico, mas implicitamente há um pedido para que os profissionais procurem se especializar cada vez mais na área para que a sua prática seja mais apropriada e específica para estes casos, visto que hoje as famílias estão mais atentas e procurando-nos mais precocemente.
Tais atualizações garantem ao profissional inclusive a possibilidade de argumentar com familiares sobre a indicação de tais métodos.
Lembrando que o fonoaudiólogo é na maioria das vezes o primeiro profissional a ser buscado quando o desenvolvimento de linguagem e social não está transcorrendo normalmente e cabe a nós o cuidado para que os eixos sejam retomados, sempre que possível.
Assim, solicitamos que o Conselho de Fonoaudiologia – 2ª. Região convide outros profissionais que proporcionem o contraponto da Live apresentada e proporcione a ampla atualização sobre o tema proposto ao maior número de fonoaudiólogos possíveis.

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