Abaixo-Assinado (#277):
Este abaixo-assinado foi produzido pela RHEG (Rede de Homens pela Equidade de Gênero), sob coordenacao do Instituto PAPAI. Trata-se de um manifesto que apresenta 16 diretrizes que consideramos fundamentais para uma política de atenção integral aos homens na saúde.
Caso concorde com este texto, favor escreveu seu nome e/ou de sua instituicao.
1. Uma política de saúde para os homens não deve gerar ameaças aos direitos das mulheres. As ações em Saúde Pública dirigidas à população masculina devem ser vistas como um avanço das políticas feministas e de gênero, na medida em que trazem benefícios para a vida dos homens, mas também para a vida das mulheres. Não deve, portanto, competir por investimentos ou recursos destinados à saúde das mulheres, nem criar estruturas isoladas. Deve atuar conjuntamente com as demais políticas de saúde, maximizando esforços e minimizando custos.
2. Cuidar da saúde não é apenas tratar das doenças. É muito importante reconhecer que as necessidades dos homens em relação a sua saúde não se limitam aos males da próstata ou outras enfermidades. Devemos também levar em consideração os aspectos psicossociais e culturais, não restringindo as ações às práticas assistenciais ou de caráter emergencial. Assim, a atenção à saúde deve incluir medidas preventivas e implementar ações educativas de promoção à saúde, fortalecendo a atenção básica.
3. A atenção à saúde masculina deve ser integral. Para que seja efetiva, a atenção à saúde dos homens deve ser integral, ou seja, não se limitar aos aspectos biológicos e envolver: 1) equipes multidisciplinares nas quais os profissionais dialoguem entre si, 2) ações em saúde que contemplem o aspecto da assistência, prevenção e promoção e 3) prática coordenada e continuada de atenção, por meio da interação com outras unidades de saúde e com outros setores (educação, esporte, trabalho, cultura, lazer etc.).
4. Informação é a base de qualquer política pública. Conhecemos pouco sobre a saúde e o adoecimento dos homens. Muitas vezes, os profissionais acabam trabalhando com dados parciais, restritos a sua própria experiência. Portanto, é preciso qualificar melhor os sistemas de informação, gerando e divulgando sistematicamente dados sobre: 1) as principais necessidades dos homens em termos de saúde, 2) as principais causas de adoecimento e de morte, 3) acessibilidade aos serviços etc. Esses dados devem fazer recortes especiais por sub-regiões, para que as propostas sejam ainda mais adequadas.
5. Os homens não são iguais. A política de saúde deve respeitar a diversidade e as propostas devem estar adequadas a esta diversidade, respeitando diferenças por idade, credo religioso, condição sócio-econômica, cor/raça e orientação sexual.
6. Homens jovens, negros e pobres merecem atenção especial. Muitas vezes achamos que, por serem jovens, os rapazes não precisam de atenção em saúde. Os homens jovens, negros e pobres, residentes em bairros de periferia, constituem a população mais atingida pela violência e outros fatores que afetam diretamente sua saúde. Precisamos criar estratégias especiais para atrair esses homens jovens para serviços de saúde, ressignificando valores e oferecendo atenção de qualidade, adequada as suas necessidades, de modo a garantir os princípios da equidade e universalidade do SUS.
7. Homens idosos também devem ser contemplados. Problemas de saúde decorrentes do envelhecimento são comuns, porém é possível envelhecer de modo saudável. Infelizmente, os homens idosos são uma população com maior resistência em procurar auxílio. Neste sentido, os serviços devem estar atentos às necessidades específicas que merecem atenção especial, particularmente no que se refere ao auto-cuidado e aos agravos decorrentes de problemas do aparelho circulatório e genital.
8. Os serviços de saúde devem ser amigáveis. Muitos homens pensam que cuidar da saúde é “coisa de mulher” e que os serviços de saúde devem ser procurados apenas quando a doença já está em estágio avançado. Neste sentido, a atenção à saúde precisa, por um lado, promover o acolhimento das necessidades dos homens em geral e, por outro, ser mais atrativo para esta população, ou seja, não apenas responder a demandas.
9. É preciso ir onde os homens estão. Mais de 95% da população carcerária no Brasil é composta por homens. O contingente das forças armadas e de albergues públicos também é composto prioritariamente por homens. Além disso, homens que residem em contextos rurais, indígenas e quilombolas sofrem ainda mais com a dificuldade de acesso aos serviços públicos de saúde. Neste sentido, para atuar na promoção de saúde junto à população masculina, é fundamental desenvolver estratégias voltadas também para estes contextos e espaços coletivos.
10. A emergência é também espaço de prevenção. O Setor de Emergências recebe uma população expressivamente maior de homens, em decorrência de fraturas, traumas e crises agudas. Este setor se caracteriza por precárias condições de atendimento, falta de recursos materiais e humanos, bem como pouca sensibilidade para o atendimento integral aos usuários. É necessário investir estruturalmente nesses setores, favorecendo uma “emergência humanizada” que possa estimular nos homens uma revisão de seus valores e práticas, promovendo prevenção secundária.
11. Sexualidade e reprodução também são questões de saúde para os homens. A participação dos homens em ações voltadas à sexualidade e saúde reprodutiva traz benefícios para a saúde dos homens e, conseqüentemente, das mulheres e das crianças. É importante produzir ações que promovam o auto-cuidado e o cuidado com os outros.
12. Paternidade é também um direito. É preciso ampliar a reflexão sobre o cuidado infantil. A paternidade (seja biológica ou por adoção) é uma prática que pode gerar benefícios subjetivos e materiais para a vida e a saúde dos homens e das próprias crianças. A paternidade não é apenas uma responsabilidade ou orbigação, é também um direito e pode gerar muito prazer. É preciso entender que pai não é visita e que muitos são aqueles que têm interesse em participar do desenvolvimento dos seus filhos. Os serviços precisam se adequar a esta realidade, promovendo acolhimento e, em alguns casos, adaptando sua rotina e estrutura para garantir o exercício da paternidade, especialmente no pré-natal, parto e pós-parto, bem como na pediatria.
13. Violência de gênero é também questão de saúde pública. Nossa sociedade se fundamenta em modelos culturais que definem o que é masculino e feminino. Esses padrões de gênero reproduzem a idéia de que os homens são naturalmente violentos. Portanto, a violência dos homens contra as mulheres (sejam crianças, adolescentes ou adultas) ou contra outros homens (sejam homossexuais ou heterossexuais) são violências baseadas em gênero, construídas a partir de processos culturais, institucionais e psicossociais. Para mudar os quadros de violências baseadas em gênero é fundamental implementar ações mais eficazes de segurança pública, aliadas a ações em saúde dirigidas aos homens, por um lado, de caráter preventivo e por outro lado, de atendimento a autores de violência.
14. A Redução de Danos deve ser um princípio básico nas ações em saúde. Os homens compõem a parcela da população que mais consome álcool e outras drogas. Para atuar junto aos homens que usam drogas, os serviços de saúde devem rejeitar medidas punitivas, restritivas ou culpabilizantes. Devem ser implantadas estratégias que possam reduzir os danos que o uso de drogas possa causar a essas pessoas, garantindo-se os princípios da cidadania e dos direitos humanos, a luz das discussões sobre gênero e masculinidades.
15. Os gestores e os profissionais de saúde precisam rever práticas, conceitos e valores. Ações educativas devem ser oferecidas aos gestores, gestoras e profissionais de saúde para que possam: 1) compreender a importância e a necessidade de ações dirigidas aos homens e 2) definir, coletivamente, prioridades e estratégias de ação a serem implementadas em seu serviço. Esse processo educativo deve promover a crítica a posturas machistas que, muitas vezes, não permitem perceber que os homens também possuem necessidades específicas em saúde.
16. Saúde é uma questão de cidadania. Promover e garantir a participação popular envolvendo homens e mulheres, jovens e adultos em qualquer processo de formulação e monitoramento de políticas públicas em saúde é um exercício de cidadania e a garantia do controle social das políticas.
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