Abaixo-Assinado (#560):
Uma vez chegado a Portugal, Scolari apressou-se a aplicar o maniqueísmo com que George W. Bush encarou a guerra contra o terrorismo: “ou estás connosco, ou estás contra nós”. Rapidamente dividiu a nação em patriotas e traidores: os que apoiavam incondicionalmente as suas escolhas, e os que reclamavam o direito de criticar as suas opções, duvidar das suas tácticas ou pôr em causa os jogadores. Os primeiros eram os verdadeiros adeptos, os únicos que desejavam a vitória e que podiam celebrá-la. Os outros eram os “velhos do Restelo”, sempre lamurientos, sempre contra Portugal.
Em seguida, pôs em prática uma política de “terra queimada”, rejeitando o passado. Antes dele, Portugal era uma nulidade. Pouco importava se nos últimos dez anos a selecção tinha demonstrado notáveis progressos, com uma boa participação no Euro 96, uma excelente prestação no Euro 2000 e fases de qualificação bem razoáveis (a campanha para o Mundial 2002). Apagando o passado, Scolari podia agora prestar-se a recolher todos os louros do futuro sucesso – mesmo que este se devesse também ao que outros fizeram.
Por fim, baixou drasticamente as expectativas – para assim colher uma renovada simpatia por qualquer resultado positivo. Apesar de contar com a melhor selecção de sempre, Scolari repetidas vezes sublinhou o contrário, culpando os atletas de serem fracos no remate exterior e de terem má preparação física, insistindo que Portugal não era uma equipa de topo. No Euro 2004, e a jogar em casa, estabeleceu como fasquia os Quartos-de-Final – um objectivo absurdo, tendo em conta a qualidade da selecção. No Mundial 2006, e apesar de ser vice-campeão europeu, voltou a traçar objectivos simples, para colher os méritos de uma participação que todos viam como provável, mas que todos foram coagidos a imaginar como impensável.
Com estas estratégias, Scolari conseguiu feitos extraordinários. Silenciou o debate, rotulando de “traidora” – esse abjecto adjectivo – qualquer posição contrária. Conseguiu que todos elogiassem os aspectos positivos do trajecto (final em 2004 e 4º lugar em 2006) e ninguém pusesse em causa aspectos negativos dessas participações (duas derrotas em casa com a Grécia; um Mundial onde não ganhou a uma Inglaterra com 10, e onde foi totalmente impotente nos momentos decisivos, contra a França e a Alemanha). Ganhou um país a seus pés. Transformou a sua teimosia em persistência, e a sua arrogância em sinceridade. Tornou-se inimputável.
Os últimos doze meses têm ilustrado de forma perfeita como foi bem sucedida a sua estratégia de marketing. Portugal está a fazer uma fase de qualificação patética. Já perdeu 11 pontos. Empatou na Arménia. Nos 5 jogos com opositores directos não ganhou nenhum. Em 11 jogos fez uma boa exibição (Bélgica, em casa). O apuramento está em risco. O primeiro lugar nem sequer depende de nós. A equipa joga mal. As prestações individuais são confrangedoras. Pelo meio, o próprio seleccionador agrediu um jogador adversário. E no entanto, recorre-se a todas as desculpas para branquear este fracasso. Os árbitros em conluio. Os relvados desastrosos. As traves. Os postes. Os outros que correm muito. As viagens. O início de época. O cansaço.
Os críticos continuam a ser injuriados. Aqueles que exigem mais são apelidados de utópicos. Os que assobiam são anti-patriotas. Os que estão desiludidos são traidores. Os que não gostam desta política de “serviços mínimos” são recordados de um passado supostamente atroz. Os que gostam de golos são confrontados com os “resultados”, essa lógica imbatível. Os que põem em causa são denunciados.
Scolari – e aqueles que têm sido seduzidos por esta estratégia – deviam contudo saber que manobras de cosmética como estas não são duradouras. Aos poucos, o “glamour” dos conceitos esvai-se e a máscara começa a cair. E, infelizmente, ela costuma arrastar muita lama. Para que isso não sucedesse, seria bom reavaliar processos e delinear novas estratégias.
Por onde começar? Não hostilizar os críticos – porque uma boa crítica pode ajudar a corrigir uma má opção. Assumir responsabilidades – para ultrapassar os erros. Confiar no apoio de todos os adeptos – e não apenas naqueles que carregam a bandeira, tecem loas ao seleccionador e veneram os jogadores. E exigir o máximo a todos os responsáveis e atletas: porque esta geração é extraordinária e Portugal não pode perder a oportunidade de se assumir verdadeiramente como uma selecção de topo.
Está na altura de este senhor sair, s concorda e simples ASSINA!!
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