Abaixo-Assinado (#63064):
Carta Aberta ao Presidente do Conselho do Clube de Aeronáutica
Rio de Janeiro, 24 de junho de 2026,
Excelentíssimo Sr. MB Vet Venancio Grossi,
DD Presidente do Conselho Deliberativo do Clube de Aeronáutica,
Dirijo-me a Vossa Excelência para solicitar a realização de uma investigação completa, com auditoria, sobre os atos e contratos firmados monocraticamente pela Presidência do Clube de Aeronáutica em seu mandato anterior, que apresentam indícios de conflito de interesses, favorecimento a terceiros e descumprimento de normas internas e legais.
O recente processo eleitoral do Clube foi encerrado com a derrota da chapa da qual participei como candidato à presidência. Recebi o resultado de boa-fé, pois a legitimidade das instituições repousa, acima de tudo, no respeito à vontade da maioria. Por isso, não pretendo impugnar o pleito, não buscarei mais nenhum cargo na administração do Clube, e esta manifestação não tem qualquer finalidade eleitoral, presente ou futura. Considero o processo encerrado.
Isso, porém, não me exime do dever de registrar preocupações relevantes para a credibilidade institucional do Clube, preocupações que, tendo obtido 46% dos votos apurados eletronicamente, julgo dever compartilhar com os demais sócios.
O pleito transcorreu sob condições que considero assimétricas. A chapa situacionista utilizou o cadastro de sócios para fins de campanha, recurso não disponibilizado em igualdade de condições à oposição, e promoveu eventos de caráter inequivocamente eleitoral, apresentados como comemorações antecipadas de aniversário do Clube, com distribuição de brindes dentro do período de trinta dias vedado pelo Estatuto.
A adoção do voto exclusivamente eletrônico agravou essas distorções. Muitos sócios não foram adequadamente informados do procedimento; outros enfrentaram dificuldades operacionais, como a exigência de digitar um zero à esquerda em campos de identificação, não esclarecida no tutorial distribuído apenas duas semanas antes da eleição.
A apuração, antes pública e acompanhável, tornou-se hermética e, desse modo, os associados não tiveram acesso aos relatórios completos da eleição, incluindo lista de votantes e votos em branco. A própria relação de sócios habilitados continha nomes de associados já falecidos, e o mecanismo de autenticação, matrícula e CPF — dados de conhecimento prévio apenas da administração e da chapa situacionista — criou uma vulnerabilidade incompatível com a confiança que um processo eleitoral deve inspirar.
Ao final, de 1.800 sócios aptos, pouco menos de um terço votou, uma participação semelhante à de eleições anteriores, demonstrando que o novo sistema não trouxe o engajamento prometido, ao custo da transparência. Some-se a isso a alteração estatutária de 2023, que permitiu a recandidatura ilimitada, e o quadro é o de um caminho à presidência vitalícia.
Torno esta carta pública porque entendo que os sócios, independentemente de sua escolha eleitoral, têm o direito de conhecer e se manifestar sobre as suspeitas que pairam sobre a administração.
Essas preocupações foram formalmente apresentadas em correspondência ao Conselho Deliberativo em 26 de maio de 2026, e reforçadas pelas proposições de voto de desconfiança e de investigação com auditoria de contratos, formuladas pelo conselheiro Francisco da Costa e Silva Júnior na reunião de 27 de maio de 2026. E, até o momento, não foram integralmente respondidas, seja pelo prazo exíguo de fim de mandato, seja pela contaminação do processo eleitoral.
De acordo com a ata daquela reunião, a Comissão de Legislação identificou irregularidades normativas em seis contratos.
Especificamente em relação ao contrato assinado com a concessionária MEL, em nossa sede central: Há ou houve relação pessoal entre as partes, que possa configurar conflito de interesses sobre a assinatura do contrato? Isso causou alguma perda de receita ao Clube? Há, em algum nível, alienação da marca Clube de Aeronáutica? O contrato respeita as leis ordinárias vigentes? O contrato segue a mesma sistemática aplicada na sede da Barra da Tijuca?
Não se trata de presumir culpa ou má-fé, tampouco de promover constrangimentos pessoais. Trata-se do exercício legítimo do dever de fiscalização. Os maiores prejuízos institucionais raramente vêm de questionamentos apresentados, mas sim de questionamentos não examinados. Instituições fortes não temem investigações e auditorias; usam-nas para fortalecer sua credibilidade.
Falo como sócio do Clube de Aeronáutica há mais de cinquenta anos, e, antes disso, por vinte e um, dependente de sócio. Por diversas vezes integrei sua administração, como diretor de esportes, integrante de comissão, palestrante, articulista e conselheiro, e por três anos custeei, com recursos pessoais, a manutenção da sede da Barra da Tijuca, em esforço coletivo para evitar seu fechamento nas gestões dos Brigadeiros Carlão Baptista e Ivan Frota.
É esse vínculo — pessoal, profissional e afetivo — que me impõe o dever moral de expressar preocupação diante de riscos à credibilidade e ao patrimônio da instituição.
Embora o Clube seja juridicamente independente, sua origem e razão de existir entrelaçam-se à trajetória da Força Aérea Brasileira, ou seja: além do patrimônio material, há um patrimônio moral e humano construído por gerações de famílias ligadas pela mesma vocação.
Essa herança confere, a meu ver, ao Comando da Aeronáutica uma espécie de "golden share" moral sobre os destinos do Clube, não como instrumento de intervenção administrativa, mas como expressão de responsabilidade histórica compartilhada.
Por isso, antes mesmo de formalizar minha candidatura, expus minhas intenções ao atual Comandante da Aeronáutica, cuja neutralidade durante o pleito me pareceu correta. Nada garante, porém, que ele ou seus sucessores permaneçam indiferentes caso suspeitas relevantes não sejam esclarecidas, pois dúvidas não apuradas tendem a ultrapassar os limites da associação civil e a projetar-se sobre a imagem da própria FAB.
Há, por fim, uma questão de coerência moral. Indignamo-nos, com razão, diante dos escândalos de corrupção da vida pública nacional, com o desperdício, com a falta de transparência e com o favorecimento indevido. Essa indignação perde força quando não aplicamos os mesmos critérios às instituições que sustentamos.
A diferença entre os grandes escândalos da República e eventuais suspeitas numa associação civil é, muitas vezes, apenas de escala, pois o princípio é o mesmo: diante de dúvidas razoáveis sobre a gestão de recursos coletivos, a obrigação moral é esclarecer, não silenciar.
A verdadeira hipocrisia não está em investigar possíveis irregularidades, mas em condenar a corrupção alheia e recusar-se a examinar as dúvidas da própria casa.
O Clube de Aeronáutica não pertence a presidentes, diretores, conselheiros ou candidatos. Pertence aos seus associados, à memória de quem o construiu, aos sócios veteranos que o sustentaram nos momentos difíceis e, moralmente, à FAB e às gerações futuras. A transparência não é ameaça à administração. Ao contrário, é sua principal aliada. E os Conselhos Deliberativo e Fiscal existem para assegurar que a Direção atue dentro da legalidade estatutária, da prudência financeira e da boa governança, não apenas para homologar decisões já tomadas.
Renovo, portanto, a Vossa Excelência, o pedido de que se proceda, em cumprimento ao Estatuto Social, a uma investigação ampla, objetiva e independente sobre os contratos firmados monocraticamente pela Presidência e, mais especificamente, sobre o contrato mencionado. Meu desejo sincero é que as questões sejam examinadas de forma serena, técnica e imparcial: se demonstrarem regularidade, tanto melhor para todos; se apontarem falhas, que sejam corrigidas. Em ambos os casos, o Clube sairá fortalecido.
Manifesto meu respeito pessoal e institucional, e o desejo sincero de que o Clube de Aeronáutica continue existindo e prosperando muito depois de todos nós. Por entender ser esta uma causa comum aos associados e oficiais da Força Aérea Brasileira, torno esta carta pública e aberta a adesões.
Atenciosamente,
TCel Av Vet Flavio Kauffmann
Sócio do Clube de Aeronáutica
Matrícula 06704
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